A Filha de Kafka


 

Capa do livro "A Filha de Kafka" | Relatos | Giselda Leirner

Editora Massao Ohno 1999

 

Capa Livro



 

Resenha de Massao Ohno para o livro

 

Como a sua pintura, a narrativa de Giselda Leirner define os personagens com pinceladas fortes, sem meios tons, os fundos carregados de camadas sobre camadas de um fatalisme trágico-solene, espada de Dâmocles sobre as nossas cabeças de fim de milênio.

Em verdade, trata-se de um conto único, um personagem-eixo com desdobramentos. O duplo é o artifício de ver e ser visto,criticar e ser criticado, no que a Autora mostrou se hábil e extremamente lúcida, coisas de escritor experimentado, conhecedor do métier.

O kaleidos de seus contos nos conduz a deslumbrantes imagens de um mesmo mote: a falibilidade da condição humana perante o tempo imutável da História. E dentro dela as oscilações dos personagens, da miséria à grandeza, da mesquinharia à generosidade, do grotesco ao arabesco.

Belo jogo de cena. marcantes personagens. estupenda urdidura-trama-ação. Um livro extremamente elaborado. conclamando a uma leitura aprofundada.

 


Matéria publicada na Revista Cult, n° 36, Julho, 2000

 

Capa Cult


“Urgência Narrativa”

Artista plástica com longa porém discreta carreira, Giselda Leirner resolveu exibir tardiamente outra face de sua personalidade artística, dando voz a uma de suas mais antigas paixões: à literatura, sobretudo à literatura enquanto a arte de contar histórias.  As narrativas reunidas em A Filha de Kafka caracterizam-se sobretudo por uma urgência em narrar, talvez o aspecto em que mais fazem lembrar a escrita kafkiana. Essa urgência traduz-se em narrativas cujo fio condutor é a tematização de algo que constitui o horizonte de toda e qualquer narrativa: a morte, a cessação da vida. Vida e morte entrelaçadas numa trama que se faz e se refaz por espasmos, no compasso de uma narração resfolegante, que no momento em que busca o ar, já é por ele sufocada e sucumbe em alguma cesura sob forma de fim, ainda que provisório: “Sou só dentro da sepultura do meu corpo” – assim termina o primeiro dos cinco breves relatos (“A Carta do Pai”) da primeira narrativa que dá título ao livro (“A Filha de Kafka”) e na qual autora imagina uma suposta filha de Kafka que tivesse que acertar contas com o peso de uma herança que fatalmente a converteria em sombra: “A filha que ele nunca teve usurpa hoje o seu lugar. Sem ser herdeira. Sendo herdeira de tal pai, me tornaria sua sombra”.

Esse é talvez o ensinamento mais lúcido do texto: literatura é possível hoje apenas nesse lugar ensombrecido, nessa zona cinza na qual se transformou a humanidade depois de Auschwitz. Emblema da morte que conduz a narrativa é precisamente a aniquilação dos judeus na catástrofe deste século, a Shoah, o Holocausto. Catástrofe das catástrofes, ela se inscreve de diferentes formas em cada um dos contos e realiza a ligação mais do que urgente da autora com sua própria ancestralidade judaica, da qual ela não só se mostra consciente mas impregnada justamente pelas próprias histórias contadas e ouvidas, por um lado, e por outro,  pela leitura e reflexão, a que se dedicou ao longo da vida, seguindo o pendor para o estudo fundado pelo avô materno, talmudista. “É para trás que conduz o estudo que converte o mundo em escrita” Essa aforismática frase de Kafka pode servir de glosa ao trabalho da autora com a palavra, vale dizer, com a escrita, um trabalho que, suave e angustiado, é ao mesmo tempo, sobretudo uma afirmação do caráter passado da narrativa, isto é, de sua dimensão de inescapável mortalidade: “Não há maior prisão do que a de viver sem conhecimento do passado”(“Irmãs”). Daí a morte usurpar o lugar de protagonista em cada um dos contos: morte por tuberculose ou câncer (“A Filha de Kafka”, “Noite de Reis”, “Irmãs”), por suicídio (“As Origens”, “Branca na Catedral”, “O Novo”), ou nas câmeras de gas. Nunca uma morte reconfortante e serena que sele um ciclo vital; sempre uma morte penosa, intranqüila, incompreensível, contra a qual a autora reinvindica a cumplicidade do leitor ao chocá-lo deliberadamente com a crueza de cada novo drama interior exposto pela narrativa.

Tematizando dessa forma a incompreensibilidade da morte e da existência, Giselda Leirner faz ecoar na sua voz a voz de outras mulheres. Brincalhona, a voz feminina de Flaubert ecoa na descrição da figura da babá russa Madalena de “Chá e Maçãs”: “Era uma alma simples, não gostava de pássaros, especialmente os papagaios”; a Clarice Lispector vai a homenagem incorporada numa Clarice da história de “Truta”, a louca; Hilda Hilst é ouvida também sobretudo numa certa dureza e imediatez do estilo – na sua gritante urgência feminina, num excesso de quase histeria que a faz vagar de um objeto a outro do desejo, sem jamais encontrar satisfação plena – a não ser na perspectiva da morte como resposta a seu próprio enigma que, como o enigma da literatura, se propõe enquanto exercício de decifração da escrita ou, em outras palavras, tentativa de acesso a um corpo inacessível (“O Novo”).

Se, como sublinha Tadeu Chiarelli, os trabalhos gráficos de GL “tratam da incomunicabilidade, do enclausuramento e da asfixia.”, esse também é um dos temas que a acompanham nessa via descendente que leva à decifração do enigma. Em “A Velha da Rua Amargós”, o protagonista é “um historiador, um visitador de cemitérios,(...) judeu errante” e é também um asmático e um fumante. Mas não uma asma qualquer, nem uma fumaça qualquer sai dos seus cigarros, nem mesmo o simples ar sai do seu pulmão: “Somente um som oco, estranho, me sai do pulmão. Deve ser minha asma. Quem tem asma não se mete com papéis velhos, dizia minha mãe. A minha asma. A que ficou como lembrança do lugar de onde vim. Eu estive lá. Eu os vi chegando, mortos vivos, arrastando os pés. Estive nos campos de extermínio. Hoje não possuo nada. Tudo desapareceu pelas fumaças das chaminés.”   Nesse oco mal ouvimos ainda ruídos da escrita kafkiana, e o arfar doente da tradição. De uma tradição que depois da morte de Kafka veio a ser perseguida ao ponto de seus representantes terem seus corpos queimados como se queimam papéis velhos, como se com isso pudessem ferretear uma memória coletivamente engendrada ao longo de centenas de anos e eliminá-la. Insidiosa, porém, a fumaça da morte penetra não só as histórias de GL, mas todas aquelas que precisam ser contadas e recontadas e registradas como um memento mori a nos advertir da urgência de uma narrativa em que testemunhos, nela inscritos, tenham amplificada a sua voz.

Susana Kampf Lages

LEIRNER, Giselda. A Filha de Kafka. São Paulo: Massao Ohno, 1999.  

 


 

Conto do livro “A Filha de Kafka”

 

Anunciação ou Anatomia de Afrodite

Rosa era um ovo. Cheio e frágil. Acordava cedo. Não lembrava de sonhos. Assim que se levantava, punha uma polca no aparelho de som. Era seu único disco. Não tinha muitos pensamentos, e falava sozinha. Não fôra sempre assim. É claro que nada é sempre assim. Rosa fôra loira, alegre, gostara de um homem e de arte sacra mais que tudo. Nunca saiu de sua cidade e sua cidade nunca deixou de ser Girona, terra cansada de uma Espanha negra e profunda.

Morava numa casinha torta, uma porta embaixo e em cima um balcão precário repleto de pequenos vasos de plantas verdes. Uma cortina de renda suja protegia o vidro embaçado da janela que dava para a Ruta de los Camiños de los Judius. Usava um penhoar rosa sobre a camiseta que lhe vinha até os joelhos grandes nas pernas finas. Passava o dia assim. Regava os vasos. Comia pouco, não pensava em nada e falava, falava sem parar. Com ninguém menos que o Grão Rabino Nahmánides chamado pelo nome de Bonastruc de Porta. Não precisava pensar pois o rabino sabia as perguntas e dava as respostas.

Rivkale, tão branca, nada se mexe em você, nada pode te tocar, pois te quebras facilmente, dizia o Rabi. Não vais à sinagoga, não rezas os shabats, nem os dias sagrados. Não sais de casa. Não importa. De todos os judeus que daqui tiveram que fugir, você foi a escolhida para ficar. O que será de você quando eu tiver que ir?

Eu sei que Deus te escolheu. Me pergunto por que. Será pela tua inteireza e pelo que você carrega no teu ventre? Este ser inacabado. Eternamente grávida, Rosa, como consegues? Acho que é porque não pensas. É preciso não pensar para manter-se eternamente grávida assim.

Teu nome carrega espinhos. Aqueles que não podem te tocar. Não fostes feita para espinhos nem que sejam os de uma coroa. Tua coroa é luz, brilhante e azul. Só eu vejo. Ela só ilumina quem se aproxima tanto de ti que não pode mais te ver.

Você desaparece e só a luz permanece.Teu filho-embrião nunca verá a luz mas será luz. Nunca serás Maria. Pois como pode Rosa ser Maria? Nem queres não é? Para ser Maria é preciso poder sofrer sem quebrar, e você, eu sei, quebrará, isto eu sei.

Você fica horas olhando Madonas no velho livro. Há uma em especial, sorridente, e que fecha um olho em piscada matreira, só para você.

O sorriso da Madona te faz sorrir de volta. Duas comadres que se entendem. Eu te entendo.O dia em que a tartaruga apareceu no jardim havia um perfume de lilases no ar. A trepadeira de glicínias estava tão cheia que seus cachos caiam até o solo misturando-se às buganvilias roxas que por ali subiam. O pequeno jardim era todo roxo e verde. No meio desta pequena caverna colorida só destacava a cadeira de palha pintada de branco. Era ali que Rosa estava sentada quando viu o bicho aparecer.

Ele veio vindo muito vagarosamente e parou em frente. Sua armadura brilhava ao sol e o olho, que só as tartarugas podem ter, o olho da eternidade, fixava-se lá onde os humanos não chegam.

Ao perfume de lilases somou-se um estranho, pungente odor de eucaliptos molhados. O corpo duro ali parado não saia do lugar. De nada adiantou cutucá-lo, oferecer-lhe água, falar com ele.

Rosa desistiu e aceitou sua presença inusitada sem mais lhe prestar atenção. O tempo passou desapercebido, inexistente.Rosa, de olhos fechados, deixara de falar. O rabino há tempos tinha morrido. Agora só ouvia os sons longínquos dos responsórios do convento que ficava mais no alto de seu jardim, pelo qual ela caminhava por escadas de pedra para então sentar-se encostada na parede e ouvir melhor o canto das mulheres.

A tartaruga passou a segui-la. Entrando em casa com o bicho atrás, preparava o almoço pondo um pouco de sua comida numa tigela que depositava no chão. Assim, ambas comiam repartindo o silêncio.Passaram-se meses. O silêncio nunca mais foi rompido nem a polca tocada. O som era dos pássaros, das folhas, da chuva e das monjas. O mais perfeito e redondo silêncio.

Numa noite, Rosa, de seu sono, lançou um grito. Terrivelmente ecoante, um grito longo sem pausa, único, suspenso no negro céu sem lua.

Aos poucos, do negro deserto a lua surgiu imensa iluminando todos os cantos do quarto. A tartaruga tinha desaparecido.

Rosa deitada, muito calma ficou assim sem se mover. Não havia mais tempo neste espaço de luz. Com medo de se virar ou mexer ficou assim, sentindo um peso úmido sobre seu ventre. Aos poucos foi aproximando as mãos e apalpou uma pequena cabeça molhada, logo em seguida foi apalpando-o pequeno ser que ali se mantinha imóvel. Apanhou-o com delicadeza para lhe ver o rosto. Era um menino muito quieto, de olhos abertos. Fitava fixamente a mãe e tinha um ligeiro sorriso. Havia luz em tudo.

Deitado ao seu lado emitia sons que não eram do vagido próprio dos bebês nem eram palavras nem gemidos, nem propriamente choro.

Na verdade o som não vinha do leito, mas de fora, do vento que batia forte nas janelas Le-Lah-Kah-He, sons que lhe produziam a sensação de estar sonhando um  ofuscamento próprio daqueles que não enxergam bem ou que vêem bem demais.

Quando silenciou o vento, o bebê também calou. Sua pequena boca só abria para receber o leite do peito materno que sugava avidamente.

Esta criança que nascera de olhos abertos e que não os fechava nunca nem para dormir, era doce e macia nos braços da mãe que o olhava com espanto e admiração. A cabeça muito enrugada ao tato, assemelhando-se a uma noz, cheia de reentrâncias suaves recebia as carícias dos dedos maternos.

Era grande o amor trocado entre a ponta do dedo e a superfície do crânio desenhado por uma vontade desconhecida de ambos. Nasceu o menino de Rosa assim, cego, de olhos abertos, pois não possuía pálpebras para fechá-los. Surdo e mudo.

Aquele que tudo ouviria, tudo saberia, e sem falar, um dia haveria de chorar baixinho, a dor dos que conhecem os degraus que levam ao patamar do espírito sagrado, dedicando sua vida à Sabedoria, à Razão e ao Conhecimento.

O filho que Deus mais uma vez mandou à Terra e a quem Rosa chamou de Yihud.