Nas Águas do Mesmo Rio


 

Capa do livro "Nas Águas do Mesmo Rio " | Romance | Giselda Leirner

Ateliê Editorial 2005

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Resenha de Márcio Seligmann-Silva

Esta é a história de duas mulheres: Guitel e Balkis. Separadas por uma geração, elas se tomam mãe e filha. Unidas pela experiência da destruição do universo judeu na Europa, suas vidas devastadas são narradas aqui como no ato de se desmontar uma babushka russa. Assim como uma boneca sai de dentro da outra, parte-se aqui do presente em direção ao mais profundo e enterrado. Uma vida é desdobrada a partir das dobras e rupturas da outra. Neste sentido, este livro é um verdadeiro ritual em homenagem a Mnemosine, mãe das Musas e patrona da memória.

Mas não se trata apenas de memória. Também o esquecimento, o emudecer e os silêncios têm um papel fundamental na arquitetura deste livro. Outras histórias de vida vão sendo acrescentadas às das protagonistas. Como a da avó de Guitel, uma campesina do interior da Polônia, que acaba seus dias no Bom Retiro. Conhecemos também o professor de filosofia e de alemão, Anschel, amante de Guitel. Seu nome, aliás, não deixa de ecoar o de outro eminente sobrevivente do Holocausto, o poeta Paul Celan.

Este pequeno e poderoso livro, entrecruza diversos registros da escritura literária: a autobiografia, a confissão, o diário íntimo, as cartas e o testemunho. A altemância dos Eus narrativos constrói uma ciranda de vozes que puxa o leitor, com sua força, para o interior de seu universo feminino. Leva-o para o meio das "Águas do Mesmo Rio". Rio com suas correntezas subterrâneas e corredeiras, mas também profundo e com fértil material deitado no seu leito. Rio do esquecimento e da memória, da solidão, mas também de (re)encontros que podem salvar nossas vidas.

Giselda Leimer costura vidas e continentes, espaços e tempos, une vivos e mortos nesta obra delicada e única no panorama de nossa literatura. Sem emocionalismo, ela narra uma história que nasce dos escombros do século XX e nos atinge em cheio.


Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG Literatura da Shoah no Brasil | Márcio Seligmann-Silva*



... Ainda nessa linha de obras de autores judeus que tratam da Shoah em seus livros, acaba de ser publicado no Brasil uma obra importante. Trata-se do livro Nas águas do mesmo Rio de Giselda Leirner.20  Ela narra a história de duas mulheres, Balkis e Guitel. O livro, que pode ser lido como um romance, é na verdade um complexo construto que entrecruza diversos registros da escritura literária: a autobiografia, a confissão, o diário íntimo, as cartas e o testemunho. A alternância dos Eus narrativos constrói uma ciranda de vozes que puxa o leitor, com sua força, para o interior de seu universo feminino. A história inicia-se em São Paulo. Trata-se da cena da morte de quem é ao mesmo tempo apresentada como uma mendiga e como uma “Rainha”. O eu-narrativo inicial (apenas muitas páginas depois conhecemos seu nome, Guitel) afirma ter perdido com esta morte de Rainha-Balkis, alguém tão precioso quanto os demais mortos que ela carregava, seu pai, sua mãe e sua avó. Ela se diz condenada a carregar o peso de seu passado.

O livro narra a história do encontro de Balkis e Guitel que, de modo inusitado no panorama da literatura brasileira, traça uma ponte entre as ruas de São Paulo, seus habitantes abandonados e esfarrapados, e a história da tentativa de exterminar os judeus da Europa. Em uma narrativa que oscila entre diferentes tempos e locais, aos poucos se constrói diante do leitor o panorama desta amizade inusitada. Descobrimos que Balkis era uma brasileira que por ter se casado com um tcheco acabou indo morar em Paris, às vésperas do início da Segunda Guerra. Seu marido além de judeu era parte da resistência. O casal acaba sendo enviado para Theresienstadt. No percurso ela “adotou” uma pequena criança desamparada, de cerca de 4 anos, que sobreviveria ao campo graças à sua proteção. No livro lemos descrições detalhadas da vida no campo, da libertação e dos percursos errantes dos sobreviventes. A vida em Praga após a libertação, a volta a Paris e o encontro da avó da criança, casualmente, em um local para sobreviventes de guerra em Paris. No final, Balkis retorna a seu país, o Brasil, e a avó de Guitel vai para o Bom retiro, tentar a vida junto à família que já emigrara para este bairro. O reencontro das duas, Guitel já adulta e sem ter reconhecido totalmente a “mendiga” que tanto despertava a sua curiosidade, pode servir de uma alegoria para a memória da Shoah no Brasil de hoje.

A quase sobreposição entre aquela catástrofe gigantesca e a atual crise econômica e social brasileira não tem nada a ver com relativização do passado, mas, antes, indica como as camadas da memória são blocos móveis e plásticos que se chocam e interpenetram. A construção das duas personagens principais passa também, como no livro de Halina Grynberg, por uma espécie de desconstrução da origem: Balkis que alimentava uma admiração por sua ex-patroa, Madame-mére-pére, como a denominava, morando na Barra Funda, mas convivendo com os moradores de rua, convertida ao judaísmo pelo sofrimento que passou (LEIRNER 2005: p. 58), tornou-se uma segunda mãe de Guitel: que, por sua vez prometera nunca casar ou ter filhos após ver uma morte de parto.21 (LEIRNER 2005: p. 88) A falta de origem evidentemente reflete a catástrofe, a Shoah, ou a noção ídiche de hurban. O fim da Heimat, pátria, e da possibilidade de se ter pátria. Digno de nota no livro de Giselda Leirner também é o seu misto de sobriedade e profundidade psicológica que contribui para envolver o leitor em sua trama. Resta ver se o público brasileiro estará aberto para lê-la e se perceberá suas sutilezas.

Para concluir retornamos à nossa tese inicial acerca da qualidade das obras feitas no Brasil a partir da Shoah, apesar da falta de diálogo desta produção com o veio da literatura nacional tradicionalmente mais valorizado. Obras como a de Nichthauser, de Scliar, de Rawet, de Cytrynowicz, de H. Grynberg e de G. Leirner, além do romance de Gartenberg, são suficientes, creio, para comprovar a importância do tema e a qualidade de seu tratamento. Com relação a estas obras aqui apresentadas, é notório que esta produção literária sobre a Shoah feita no Brasil pode ser vista como uma espécie de resumo concentrado de uma enorme produção, já que muitas de suas modalidades estéticas e determinadas pela relação de proximidade ou afastamento cronológico do evento, e pela pertença à geração dos sobreviventes ou de seus descendentes, estão aqui representadas...

20 - Giselda Leirner, Nas águas do mesmo Rio, São Paulo: Ateliê, 2005.

21 - Justamente a cena do enterro da mulher que morreu de parto é uma das passagens mais sutis do livro. Após descrever o cortejo, lemos: “O enterro. Eu o vi depois, muitos anos depois, em Paris, quando visitava os Museus e me encontrei frente ao quadro de Courbet, L’enterrement à Ornans.” (Leirner 2005: p. 89) Ou seja, na construção literária – assim como na construção mnemônica – entram elementos emprestados a outras realidades. O limite da recriação não existe. O texto de Leirner tem esta característica de ser um texto fictício calcado em dados históricos. Ele tem toda liberdade dentro de uma dívida com os fatos que ele apresenta sem pretender uma objetividade (impossível). Esta intervenção de uma famosa tela como fonte provável de uma passagem da história explicita esta ambigüidade do seu livro. Não por acaso no livro lemos a frase: “A poesia é mais verídica do que a história, dizia Aristóteles. Continuarei a fazer poesia sem ser poeta.” (Leirner 2005: p. 37) Esta referência à Poética aristotélica deve ser complementada com a reflexão de Lévinas contida em seu ensaio (inspirado no livro de Zwi Kolitz, a que originalmente este seu ensaio serve de pósfácio) “Aimer la Thora plus que Dieu” (in: Zvi Kolitz, Yossel Rakover s’adresse à Dieu, Paris: Calmann-Lévy, p. 101-111). Lévinas, no final da década de 1950, escreveu neste ensaio que esse texto de Kolitz só poderia ser uma ficção – numa época que ninguém podia suspeitar disso – pois ele é “beau et vrai, vrai comme seule la fiction peut l’être”. Mas o filósofo logo acrescenta: “ce texte... traduit une expérience de la vie spirituelle profonde et authentique”. (p. 103s.)

*Márcio Seligmann-Silva é professor livre-docente de Teoria Literária na UNICAMP e pesquisador do CNPq. É autor de Ler o Livro do Mundo (Iluminuras, 1999), Adorno (PubliFolha, 2003) e O Local da Diferença (Editora 34, 2005). Organizou os volumes Leituras de Walter Benjamin: (Annablume/FAPESP, 1999; segunda edição 2007), História, Memória, Literatura: o testemunho na era das catástrofes (UNICAMP, 2003) e Palavra e imagem, memória e escritura (Argos, 2006) e co-organizou Catástrofe e representação (Escuta, 2000).


Festa de lançamento do livro "Nas Águas do Mesmo Rio"
na Pinacoteca do Estado de São Paulo

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