Naufrágios


Capa do Livro "Naufrágios" | Contos | Giselda Leirner

Editora 34  2011

 

Naufrágio

 

 


Resenha de Márcio Seligmann-Silva

 

 

A poesia desde sempre teve a ver com o crepuscular. Ela se alimenta de dois nutrientes básicos: o amor e a morte. Basta lembrar a conhecida história de Orfeu e Eurídice, contada por Ovídio em suas Metamorfoses. Plutão permitira que Orfeu retirasse a sua amada, Eurídice, do Hades, o mundo dos mortos. A condição era que Orfeu não poderia olhar para trás para ver sua amada. Como ele não soube se controlar e, em um gesto fatídico, voltou-se para ver Eurídice, ela teve que retornar ao Hades e lá morar para sempre. Essa reviravolta, esse olhar que provoca a destruição e a morte, pode ser interpretada também como a capacidade do poeta de nos (re)enviar ao reino dos mortos. É como se o poeta tivesse uma relação privilegiada com aquele reino tão temido e que, ao fim, é a casa de todos nós.

Mas também poderíamos ler esse mito como uma parábola da capacidade do poeta de olhar de modo autoconsciente para seu ofício. Esse olhar é sempre um risco. É como o equilibrista que, sobre a corda estendida entre dois prédios, mira o abismo. Isso desestabiliza, provoca vertigem. Neste raro livro que o leitor tem em mãos, Naufrágios, da conhecida artista plástica e escritora Giselda Leirner, podemos dizer que se unem esses dois aspectos do olhar de Orfeu – o deus dos poetas e literatos. Por um lado, esses fragmentos e destroços de história remetem quase sempre a uma passagem para o mundo dos mortos. Trata-se de uma literatura que respira e vive dessa passagem tão cercada de tabus e de medos em nossa sociedade, que teme a morte e a exila em UTIs, transformando-a e reduzindo-a a assunto médico. Por outro lado, Giselda Leirner, uma escritora experiente e escolada, não teme ou abre mão do gesto de refletir sobre sua própria atividade de escritora. Ela como que se descasca e despe diante do leitor, revelando a escritura como um processo e como um modo de sobrevida, meio de trançar vida e morte e de passar de um polo a outro. Ela se despe na medida mesmo em que afirma que a escritura é sua roupagem: “Escrevo. Não faço outra coisa que descrever, este sucedâneo literário que encobre minha carência, minha incapacidade. Desespero.”

Podemos falar deste livro, portanto, como uma escrita crepuscular, como uma obra que é extrato do desespero, porque não há nada mais a esperar senão a morte. Mas essa espera também é vida e – literatura. Trata-se aqui de um testamento (“tudo que escrevi é testamento”) e de um testemunho. Ambos os gestos têm a ver com a morte e a atestação. Atesta-se a vida no mesmo gesto em que se atesta a morte. Lega-se a escrita para o além-vida. Olha-se para o futuro. Mas a escritura, no entanto, é também ritual, reza, kadisch, jogo de luto. Ligando o passado ao presente e ao futuro, ela é fita embebida em suco que conserva, embalsama. O livro é nave que permite singrar os rios que cercam o Hades: o Lete, rio do esquecimento, o Flegetonte, rio do fogo, o Estige, rio da imortalidade, o Aqueronte, rio das dores, o Cócito, rio das lamentações e o Eridano, o grande rio que fica no fim do mundo. A poesia é tanto atestação, como sobrevivência. De uma vida que naufraga – e toda vida tem seus naufrágios – sobrevivem as palavras, retratos, flashes, que são aqui colecionados e apresentados.

Uma das forças desta obra está no fato da narradora acabar por se auto-afirmar como uma espécie de alter-ego da própria escritora. Isso potencia esse jogo lutuoso. Os papéis de autora e de narradora se embaralham. Nesse jogo, vida e morte, corpo, sangue e escritura acabam se misturando, em um caleidoscópio que não tem como não envolver o leitor. Giselda Leirner, mais do que a partir de sua vida, escreve com seu corpo. Essa escrita autoconsciente trabalha também de modo sofisticado com todo o tipo de duplicações e espelhamentos. Percebemos aqui uma clara alusão ao fato de que todo autor se espelha e se duplica e fragmenta na sua escritura. Mas aqui a autora faz esse jogo sem temer a sua explicitação. Não por acaso, ela escreve sobre gêmeos e, em um dos “contos”, a voz que narra é a da própria sombra da protagonista. A sombra, esse nosso outro que também simboliza o esquecido e recalcado. A sombra como duplo e idêntico que difere, põe em questão nossa aparente unicidade. Por outro lado, os personagens aqui são de fato sombras e espectros do passado, imagens que pedem voz, como as almas que acediam Ulisses na visita que ele fez ao Hades.

Os nomes desses personagens, que parecem vir de um mundo destruído – o mundo da judeidade da Europa oriental – também acabam por gerar uma espécie de estranha serialização de personagens. Eles não são unos, singulares, mas um liga-se ao outro, como no jogo das Babushkas – apelido de uma das personagens –, ou como nos bonecos que se desdobram, após o recorte de seu perfil, da brincadeira infantil. Essa sabotagem da unicidade, essa ruptura do código da identidade e da diferença, anuncia-se também nessa frase: “Entre o sagrado e o profano não há diferença”. Essa indiferenciação abala a base para a existência da “lei”, ou seja, daquilo que promete estancar a morte e proteger a vida. Em “O sacrifício” vemos uma verdadeira encenação da violência decorrente dessa indiferenciação. A figura de Janus, que nesse “conto” une o claro e o escuro, o dia e a noite, a morte a vida, surge para significar também o terror da indiferenciação.

Por que essa verdadeira aversão ao próprio, àquilo que se considera idêntico a si? Certamente, ao menos em parte, porque nesses fragmentos de narrativa ecoam também os gritos do terror provocado no século XX por conta da máquina identitária que pensou poder criar uma “raça pura”, ariana, sem misturas. Por outro lado, essa mesma máquina gerou desterros, exílios, vidas dilaceradas, que aqui também são retratadas, reafirmando Giselda Leirner como uma das principais escritoras, no Brasil, sobre essa catástrofe que fez tremer nas bases a Aufklärung (Iluminismo) e a arrogância do logos. Esses seres desterrados apresentados neste livro sentem-se eternamente como “outros”. No Brasil, falam o português apenas com os “estranhos”, ou seja, com os brasileiros, com os quais apenas com dificuldade se identificam. Eles incorporaram o fato de que eles mesmos são estranhos e sempre viverão sem pátria e sem casa. Daí as inúmeras e incansáveis viagens das personagens desse livro – ou da personagem desse livro. Como lemos em “Sem saída”: “Desterrados, viveram no exílio que guardavam dentro de si por toda a vida, sabendo que vivenciavam a metáfora do homem moderno, o deserto e seu abandono.”

Essa personagem sofre de nostalgia: de uma vida que se vai, mas também de um mundo que se acabou. Saudades, por exemplo, de um avô que ficou na Polônia e que só sabia estudar e não tinha tempo para pensar em coisas menores, como alimentar a sua família. Ele vivia “só estudando, sempre estudando e balançando o corpo”. Talvez, poderíamos especular, esta obra que temos em mãos seja também uma continuidade desse mesmo estudo e desse mesmo gesto de balançar o corpo. Mas, talvez também, esse estudo agora não tenha mais a crença em uma redenção, mas apenas uma crença na literatura. Na força da escritura. Com ela, aqui, o poeta Orfeu volta-se para trás e somos lançados simultaneamente ao mundo dos mortos e despertamos para a vida.

 


 

 

Por José M. Neistein

Washington, D.C. 

Maio de 2011

 


O ciclo de Lieder de Schubert "Viagem de Inverno" começa com os seguintes versos de Wilhelm Müller: "Aqui vim como um estranho/Como estranho parto". Samuel Beckett era um grande admirador desse ciclo, cujo profundo conteúdo existencial o influenciou grandemente, como ele declarou em várias ocasiões. A dolorosa experiência de não pertencer, de ser um corpo estranho dentro da transitoriedade da vida terrestre é a divisa de sua obra. Beckett, por sua vez,, é uma influência marcante na escrita de Giselda Leirner . Como em Beckett, os personagens de sua ficção, além de viverem alienados no mundo e na sociedade, e disso terem lúcida consciência, são também estranhos a si mesmos, não cabem dentro de suas peles, têm imensa dificuldade de se comunicarem com os seus semelhantes, e uma dificuldade ainda maior de conviverem consigo mesmos. A memória, instrumento-chave que eles usam para reconstituirem suas histórias pessoais, é também o instrumento que os dilacera.

Nesta coletânea de contos, todos eles são fragmentos de vida, episódicos ou memoriais, todos eles escritos na primeira pessoa. Narradora e protagonistas muitas vezes se fundem, se confundem. Ficção e realidade são inextricáveis. Enquanto a ficção se alimenta da vida, a vida emerge como ficção. E o que é que torna possível para o leitor - e para a própria Autora - esse fluxo e refluxo? A escrita. A escrita literária. É graças a ela que a narradora nos fala dos destinos de suas criaturas. E a nossa empatia com as criaturas só é possível pelo testemunho escrito da criadora. Da criadora nos vem a perspectiva das criaturas. O sopro de vida que alimenta as criaturas vem da criadora. Mais ainda: a criadora se desdobra nas criaturas, e, não raro, criaturas e criadora são uma só e única entidade.

O ponto de partida na moldagem dos personagens é a própria Autora, ou seres reais a ela relacionados ao longo de sua vida, parentes, amigos, conhecidos, rostos individuais de acontecimentos que cruzaram sua trajetória, amores e desamores, tudo tranfigurado pela imaginação, tudo metamorfoseado pela arte. Nesse complexo contexto, alguns temas se sobressaem. São eles episódios de dimensões existenciais, tomados de empréstimo da história da família na Polônia e no Brasil, da vida judaica na Europa oriental, antes, durante e depois do Holocausto, e dessa mesma vida transplantada para o bairro do Bom Retiro em São Paulo, nas décadas de 1930, 40 e 50, resposta brasileira ao Lower East Side de Nova

York, para onde convergiram imigrantes foragidos, primeiro, dos pogroms, depois, do Holocausto, e naquele bairro viveram e sofreram as humilhações da abjeta pobreza que muitas vezes já conheciam de antes, de seu desenraizamento, de sua rejeição. É um mundo de ontem que a Autora conhece bem, e que ela sabe usar como limite extremo da experiência da consciência e da alienação, e, portanto, como metáfora da própria dor de existir. Mas há personagens afluentes também, cujas fortunas não os isentam das angústias do estranhamento e da alienação.

Já se disse muitas vezes, e de muitas formas, que toda literatura de ficção válida é autobiográfica, qualquer que seja o gênero. O caso em pauta se insere nesse rol. Ele é o produto de uma maturidade atingida pela vivência e pela reflexão. É o produto de uma escrita que nos fala de perto pela postura franca e honesta de alguém que sabe que os segredos de toda uma vida não valem a pena serem guardados para a eternidade. Sabe que seu destino pertence à memória coletiva, e sabe que é a escrita literária que lhe dá a necessária abrangência e amplidão, dignas de serem partilhadas. Nela, pudor e despudor, sexo, amor morte, amalgamados, não são valores morais ou imorais: são categorias neutras, parte integrante de um desejo de comunicação e conscientização incoporados à vida e ao seu sentido, ou à sua aparente falta de sentido.

A narrativa, entrecortada de digressões, reflexões e diálogos, é direta, coloquial, e fala ao leitor sem intermediários, com a intimidade tácita de quem não tem nada a esconder, nem sequer os segredos de sua própria escrita, que precisa de cúmplices. Nós somos os cúmplices, e experienciamos essa carga. Embora a ação dos contos se desenrole no nível secular, há, contudo, em suas escavações geológicas mais profundas, camadas de inquietação e aspirações religiosas, espirituais, justiceiras, um espírito de que desafia a existência de Deus e de sua possível relação com os anseios humanos. Vários personagens indagam, buscam, e geralmente não encontram Deus. Sofrem tanto que não se lembram de procurá-Lo dentro de si mesmos. O desejo ardente de encontrar um mínimo de certeza dentro das muitas incertezas, atravessa o livro todo, como uma lança arremessada com toda força.

A grande diversidade de personagens que transitam em seus contos é vista pelo leitor, e pela própria Autora, em duas grandes categorias: aqueles que escrevem e aqueles que não escrevem. Os que não escrevem, levam vidas imediatas, geralmente vividas mas não refletidas. Os que escrevem, levam vidas mediadas, para falar com Hegel. Vivem suas vidas, suas angústias, seus impasses, e os plasmam em suas escritas, resultados de suas reflexões e da consciência de suas consciências. Os que escrevem também lêm. Lêm a Bíblia Hebraica, os clássicos gregos, os místicos medievais, os novelistas ingleses, franceses e russos, Nietzsche, William Burroughs e mais, e mais. Essa combinação aprofunda o sentido de suas relações com pais, avós, filhos, irmãos, cônjuges, amantes, amigos, inimigos, estranhos. E consigo mesmos, principalmente. A escrita duplica a vida e a sustenta. Vida e escrita emergem inseparáveis.

A agilidade dos diálogos vem da experiência que a Autora teve com o teatro, num dado momento de sua vida. A expressiva dimensão das indagações existenciais provém de sua vasta experiência com a filosofia, a teologia e a literatura, do passado e do presente. Seu léxico é variado, rico e accessível a todos os níveis de leitores e de leituras. Sua sintaxe é fortemente calcada no português culto, urbano, da cidade de São Paulo, e isto quer também dizer que ele tem italianismos e europeismos de várias fontes e de várias culturas, que dão à sua linguagem um distanciamento das fontes castiças, e uma aproximação aos modos de expressão - porque não dizer? -cosmopolitas. Giselda Leirner faz uma literatura escrita em português, mas que também transpira climas conceituais e emocionais de outras culturas, além da brasileira, da paulistana, tanto pela perspicácia da arguta observação de largas estruturas e miúdos pormenores reveladores, como por suas aguçadas antenas apátridas e universais. Não residirá aí o insubstituível tesouro da solidão, em sua roupagem e em sua nudez tão pessoais?


 

Força e elegância

Maurício Melo Júnior

 

O fenômeno foi apontado por Silviano Santiago. Há um precioso cuidado com a linguagem nos textos dos autores contemporâneos, apesar das aberrações cometidas pela chamada literatura de periferia. Não é o fato de escrever sobre um ambiente em condições adversas que dá ao escritor o direito de macular de maneira atabalhoada a gramática. Uma leitura atenta de Vidas secas ensina que Graciliano Ramos não precisou empobrecer a língua para contar de uma cachorra.

Neste sentido ainda vale o alerta de José Américo de Almeida no prólogo de A bagaceira, publicado em 1929: “A Língua Nacional tem rr e ss finais… Deve ser utilizada sem os plebeísmos que lhe afeiam a formação. Brasileirismo não é corruptela nem solecismo. A plebe fala errado; mas escrever é disciplinar e construir…”

Voltando ao tema inicial, esta excelência de linguagem se mostra e se destaca no novo livro de Giselda Leirner, Naufrágios. Nos 14 contos há uma elaboração de frase cuidadosa, pensada para favorecer a mensagem e, o mais importante, privilegiar o ofício literário. A escritora não está interessada em apenas contar uma história, quer, além disso, fazer de seu texto uma obra de arte, e assim faz literatura.

Certamente este trabalho de carpintaria é o responsável por outro aspecto bem interessante do livro, o número de personagens escritores ou que deitam no papel suas angústias e apreensões. Giselda opta por dar voz às suas criaturas como um exercício de valorização da linguagem, também. Os homens e mulheres que permeiam os contos existem pelo fato de estarem numa narrativa, como narradores ou não, mas fundamentalmente como seres de papel e tinta. Este sentido de existência não deixa de ser uma sutil metaliteratura. Ou seja, os vários narradores do livro estão ali pela função que exercem, assim como o escritor real ganha importância e relevância pelo que produz, pelo que escreve e como escreve.

Daí se parte para uma outra valorização, a da cultura. Transpondo o debate para um universo ilimitado, é como se Giselda Leirner estivesse nos alertando para um quase adágio judaico: o único bem que definitivamente o homem não perde é o conhecimento. Em toda e qualquer situação em que ele se encontre, sobrevive sempre tudo aquilo que aprendeu. E o registro constante deste saber é também uma maneira de deixar claro que sua vida não foi vã, não foi apenas uma passagem a mais pela terra.

Aliás, a cultura judaica, mais que o judaísmo, tem uma forte presença nos contos. Giselda leva seus personagens a discutir desde as questões religiosas, o sentido de todos os rituais, até mesmo as dores e cicatrizes que sobreviveram ao holocausto promovido pelo nazismo. Outra vez, no entanto, entra em jogo o sentido de cada uma dessas ações. Os ritos, mesmo quando exercidos em língua estranha, aliviam as dores, e as perseguições históricas são lembradas como um ousado alerta para a capacidade do ódio e a necessidade da sobrevivência.

De certa forma é o apego a estas tradições que dá força aos personagens. Todos, de uma maneira ou outra, estão num momento de decadência, ou relatam um desses instantes. Pululam solidões, velhices, finitudes, fechamentos de círculos, mortes. Apesar disso, e aí voltamos à pujança da linguagem, não caminhamos em um terreno melancólico. A vivacidade das narrativas nos diz que há vida diante de tudo isso. Outra vez a importância da sobrevivência e da necessidade de enfrentar as dores.

Tradições
Finalmente chegamos ao último aspecto a destacar, o cosmopolitismo. Como os próprios judeus, os personagens vagam pelo mundo levando toda carga de suas tradições. Esta multiplicidade de cenários, no entanto, é mais sentida que propriamente descrita pela escritora. Aliás, pouco se vê de paisagem em seus contos, quase todos vivenciados em ambientes fechados. Parece interessar a Giselda o que o homem traz em si mesmo, indiferente ao espaço onde vive. Esta é uma curiosa e eficiente maneira de tentar desvendar o âmago de cada ser. É a vida que se vive que constrói o mundo, e não o contrário, nos dizem os textos.

A pressão e as autocobranças sofridas no processo de construção da vida são fortes e doloridas, pelo menos é o que mostra a escritora. Isso a faz levar suas criaturas até os limites da razão. Daí soam com naturalidade umas tantas perversidades, mais outras tantas situações absurdas. Interessante é observar que não se seguem tais caminhos com a pretensão do escândalo, do choque. Tudo aqui está tão impregnado de suavidades e verdades que a leitura remete o leitor para o prazer de um texto seguro e bem escrito.

E por falar nos sentimentos mais profundos do homem, Giselda Leirner, claro, passeia pelas várias formas da paixão. O curioso é o sentido de entrega de todos por aqui. Mesmo aqueles que desprezam, se afastam, fogem, parecem fazer pelo sentido da piedade. “Para ter compaixão é necessário um espaço de separação”, escreve Giselda, e esta metáfora da separação como uma atitude amorosa monta o arcabouço psicológico de seus personagens. Para eles a solidão é um momento de reflexão, um instante onde é possível olhar de frente todos os fantasmas e daí partir para a confecção do novo, da revolução íntima.

Privilegiando a linguagem e o sentido da existência, Giselda Leirner faz da reunião de contos Naufrágios um excelente exercício da literatura real, aquela feita para divertir e para desvendar um tanto da complexidade humana. A literatura de que precisamos, enfim.

 

Maurício Melo Júnior

É jornalista e escritor. Vive em Brasília (DF).

 


 

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