Formas da memória

Em Giselda Leirner a arte flui como flui o ar para quem respira. É uma convivência inerente a ela, faz parte do mundo que lhe foi revelado desde os primeiros momentos de existência. A arte está ligada aos primórdios do seu ser, merecendo uma natural dedicação. O paradoxal é que, sendo assim, Giselda não desfruta de facilidades, mas lança-se a um constante desafio, como o explorador que aventura-se ao desconhecido. No seu caso, o espaço a desbravar é o do papel onde vai deflagrar o desenho. A folha branca é a sua especial geografia, nela, com o gesto e o traço, a artista busca a própria redenção, o resgate da vivência através da arte.

Já se vão quase cinquenta anos em que ela produz, num ritmo peculiar, com uma dinâmica absolutamente própria. Afinal, passar longas temporadas dedicada ao estudo de algum assunto específico também resulta em alimento de sua obra. Seus saberes sobre filosofia, literatura, poesia, psicanálise, ciências sociais, arquitetura, as diversas belas-artes, tudo isto impregna-se nos desenhos. Esta consonância com as questões do pensamento é que adensa a sua contribuição à arte brasileira.

Manipular a memória está entre as capacidades que distinguem o homem no reino das coisas existentes no universo. Esta habilidade nos permite o desenvolvimento de técnicas e de linguagens, o repasse de cultura. Justamente na memória é onde Giselda Leirner busca a força propulsora de sua criação. Há uma epopéia do conhecimento que suas imagens, a um só tempo, procuram e conseguem captar. Sendo anotações explícitas do imaginário, cada desenho remete ao percurso da arte como saber humano. A artista nos conduz a estes caminhos, tornando-os parte de uma história comum à disposição de todos. No seu trabalho, a forma é o essencial, seja ela resultante da distribuição das figuras no plano, ou dos objetos em composições onde sugerem-se cenários ou de volumes e linhas combinados em abstrações. Este alcance formal é um dos estímulos ao ativar da memória, por se revelar intrinsecamente memória.

Há poucos anos, Giselda realizou uma exposição retrospectiva em São Paulo. A seleção sistemática dos trabalhos permitiu uma avaliação integral de sua trajetória. As séries vistas ao longo do tempo - as primeiras pinturas, as gravuras, o inúmeros desenhos - forneceram uma visão da coerência de seu desenvolvimento profissional. Ficou provado que, em Giselda Leirner, a multiplicidade de recursos tecnicos e materiais enriquece a expressão fundamental do desenho.

O repertório de Giselda Leirner é vasto. No entanto, a organicidade com que os diversos componentes de seu elenco de propósitos é posta em ação torna cada trabalho intimamente ligado ao outro. As unidades vão se revelando em meio às diversidades. Neste exercício é "Iibérrima e enxuta", usando as palavras de Manuel Bandeira ao definir outra dama da arte brasileira, a poeta Cecma Meireles. Também é "tão forte e tão frágil" e "como o ar, diáfana, diáfana" ...

Para a exposição agora organizada pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi selecionado um conjunto de desenhos posteriores a 1980. São peças que iluminam o conhecimento do mundo sensível de Giselda Leirner, permitindo conviver com a misteriosa coesão que perpassa através de seus trabalhos. Estas obras representam um infinito combinar de significados, transmitindo, através de um exercício pleno do ofício da arte, uma inequívoca paixão pelo aprendizado de viver.

Cláudio Telles, Brasília, setembro
de 1996

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