Segmentos críticos


O desenho de Leirner - “a relação mais fina e delicada que possa haver entre o eu e o fora do eu” - instaura uma escritura, um código, uma possibilidade de agir e interagir com o mundo através da arte. Mas a artista sabe das dificuldades que envolvem esse desejo atualmente e, por isso, seu grafismo, ao mesmo tempo sutil e nervoso, denso e fluido, constrói-se em dilacerações, consciente da quase total ineficácia dos códigos artísticos frente à brutalidade do cotidiano. Seus trabalhos tratam da incomunicabilidade, do enclausuramento e da asfixia. Mas demonstram, ao mesmo tempo, como é possível, ainda, à arte assumir seu papel de ponte entre o eu e o outro, elo de ligação entre dois sujeitos, duas sensibilidades.

Tadeu Chiarelli – “Giselda Leirner tem obra reunida”
O Estado de São Paulo, julho de 1994


Para Giselda, o desenho é uma forma de pensar, é o seu modo particular de filosofar. Para ela, os sistemas filosóficos têm a mesma beleza rara das obras de arte, de uma sinfonia, por exemplo. Evitando sempre viciar a mão, para não cair em formalismos, a artista é violenta e apaixonada na hora de criar, procurando arrancar tudo o que está dentro de si, colocando-se inteira no papel. Mas sendo, também uma intelectual, este colocarse inteira na obra significa, ao mesmo tempo, emoção e reflexão, coração e mente.

Frederico Morais – “Giselda Leirner”
Texto inédito enviado à artista, Rio de janeiro, novembro de 1991


Leirner diseña un mensaje cuya tersa propuesta de objetividad no desprecia Iigazones con su mundo interior, sin que esto - por otro lado - se una a supuestos oníricos. La creadora, inclusive, se refiere a su quehacer en términos que casi resultan una clave para el espectador: “un comentario sobre el mundo exterior através de una visión subjetiva”. Indiscutiblemente, Leirner no teme a las palabras. También es casi imposible ubicarla dentro de un “ismo”. EI suyo es un arte riguroso y libre al mismo tiempo, manejado con un bagaje instrumental cuya obsesiva sobriedad, más que limitar, da potencia a un lirismo que puede ser arrasador. La vida y la muerte, esas opresiones que tan a menudo sirven para caratular al mundo de nuestros días, y, por encima de todo, un insustituible impulso libertario, nutren Ias visiones que presenta.

Alfredo Andrés - “Los Finos Dibujos de Giselda Leirner”
La Opinion, Buenos Aires, maio de 1978


Os desenhos de Giselda Leirner possuem uma beleza que vem de dentro - não de fora. Têm a densidade da música de câmara. São o que desenhos devem ser: o depoimento mais autêntico do artista, sem subterfúgios, sem fogos de artifício, sem obediências às últimas tendências da moda. É o depoimento que revela a estrutura interior e técnica - mostrando tudo, escondendo nada. Giselda Leirner gosta de temas. São os temas eternos: o amor e a morte, a opressão e a busca de liberdade. Sem se amarrar a eles, interpretando-os livremente, quase abstratamente. Sem medo. Medo de ser chamada romântica, lírica, literária. Sem filiações estéticas u outras. Sem hesitações, pelo menos aparentes, porque os seus desenhos dão a impressão de espontaneidade baseada em segurança. Sem preocupações técnicas, e sem virtuosismos. Usando livremente os materiais mais diversos, e as técnicas adequadas a cada um. E aqui temos o resultado de muitas pesquisas. Trabalhos sóbrios, sólidos, sofridos e pessoais, de uma artista madura que sabe o que quer, sabe como chegar lá. E sabe como levar-nos com ela.

Marc Berkowitz – “Giselda Leirner”
Apresentação da exposição na Galeria Ruth Benzacar,
BuenosAires, abril de 1978


Estranha concepção tão sombria com um tratamento extremamente cuidado das figuras, que parecem forçar Giselda a exigir uma disciplina quase alva ao mundo negro que espelham. A artista exercitou e alcançou uma penetrante percepção individuada em soluções plásticas de hoje e de ontem. Domina as possibilidades do branco e do preto, do traço-risco-linha e meios tons sobre o espaço-campo do papel. Controla suas opções com segurança e, por isso mesmo, permite o percurso quase tranquilo ao longo de sua tensa e macabra galeria. Compensa a rotina do comentarista ver tanta força e transcendência no difícil e sempre intelectual desenho, embora no caso atinja extremos emocionantes. (...), Giselda, a toda emoção, grita com a racional consciência de quem conhece a inutilidade das contenções.

Jayme Maurício - “controlada lividez negra de Giselda”,
Artes Visuais, Última Hora, Rio de Janeiro, agosto de 1977


Trata-se de um trabalho profundamente tenso, depurado e acima de tudo inteligente. O universo cultural da artista emerge do espaço branco contornado pelo grafismo incisivo e dominantemente crítico. Isoladamente cada um desses desenhos possui identidade própria e configura portanto uma simbologia autônoma. Mas dispostos em sequência atingem um nível de significados mais amplos e abertos. Formam os signos de uma linguagem que tanto no plano da expressão como do conteúdo refletem controle, agudeza e sensibilidade da artista na execução da exegese simbólica impressa nos trabalhos. Seria conveniente lembrar que ato criativo prescinde a utilização de meios instrumentais pomposos e novidadeiros para a expressão plástica. Giselda Leirner com lápis e papel, (...) sorrateiramente, sem alardes retumbantes, induz-nos à reflexão.

Radha Abramo – “cavaleiros e Silêncio”,
Artes Visuais, Última Hora, São Paulo, novembro de 1976


O que me parece sobremodo importante na pintura de Giselda Leirner é a recusa a quaisquer concessões exteriores. A artista não se impressiona com escolas nem tem preconceitos artesanais e, principalmente, desconfia das teorias. Giselda pinta, com convicção e amor. Sem abandonar a figura, não se deixa, entretanto, dominar por ela. A figura é uma forma como outra qualquer, porque não aproveita-la? Não há como classificar a pintura de Giselda Leirner em uma das correntes em voga, nem caberia no catálogo dos movimentos do passado. É muito pessoal, caracterizando-se pela busca de tonalidade geral mais do que dos acordes coloridos, construindo-se de maneira mais instintiva do que racional, A alguns, nesta época de ousadias nem sempre convincentes, uma tal pintura poderá parecer tímida, arisca mesmo. Olhando-se sem parti pris, logo descobrirão que, ao contrário, revela uma vida interior intensa. Não há nela extravagâncias de matéria, nem aplicação de fórmulas já agora assaz acadêmicas. Há, isso sim, uma honestidade de propósito que se alia a uma indiscutível honestidade de meios.

Sérgio Milliet - “GiseIda Leirner” -
Apresentação da exposição na Piccola Galeria do Instituto Italiano di Cultura, Rio de Janeiro, junho/julho 1960.


VOLTAR