Uma trajetória: Giselda Leirner

Aracy Amaral

Giselda Leirner

Percorrer a exposição de Giselda Leirner é como estar diante da obra de uma espécie em extinção. Pela própria personalidade difícil da artista, ao mesmo tempo envolvente por qualidades absorvidas através do tempo com carga altamente positiva. Apaixonada por literatura, conhecedora de música, estudiosa em estética, formada em filosofia, desenhista desde suas entranhas até a raiz dos cabelos. Artista por necessidade vital de expressão. Expondo raramente, porém possuidora de uma obra coerente, a partir dos desenhos que começa a produzir desde menina, como ela mesma confessa.
     
Existe por um certo preconceito em relação ao artista que pode dispensar o mercado de arte para sobreviver, ou em relação ao artista que é ou foi rico. Isso é pacífico e só pode desdizer quem for cínico. Como também se sabe muito bem que há muitos que se firmam no meio artístico nacional ou internacional através de um currículo "oculto" - relações afetivas, ou pessoais, que os impulsionam ao festejamento ou às solicitações. Não há aqui nenhuma crítica, apenas o registro de um dado importante quando se aborda uma obra. Giselda Leirner está longe de ser ingênua. Muitos artistas na família, o desejo de um convívio familiar pleno, daí a razão pela qual optou, ao longo dos anos, em permanecer à margem de um processo de auto-projeção, sem abrir mão de sua criatividade. Que aflora agora como enriquecida pelo adensamento propiciado por sua experiência tanto humana como profissional. Uma apresentação de suas obras se constitui um raro encontro com a trajetória de um artista cultivado. Sofisticado, apesar de aparente simplicidade de sua arte. Artista algum, entretanto, pode trair sua geração, a imagética de sua geração, as admirações ou afinidades que correspondem a um tempo. E essa fidelidade nos toca na medida em que reflete, por essa mesma razão, uma autenticidade ontológica. Alguns dos trabalhos mais antigos desta mostra, que Giselda Leirnerpercorre cerca de 40 anos de sua vasta produção, são de 1956: duas litografias. Uma mesa com flores, cubistizante, de traços incisivos e fortes, e outra rara composição, ambos tangenciando o abstracionismo, bem dentro do espírito da década. São maduros como realizações de artista jovem, esses trabalhos concebidos ainda como aluna de Yolanda Mohalyi. Na produção dos anos 60, exposta por Giselda, não transparece toda a informação pop que inundava o Brasil n período, provando como muitos eram infensos às modas e permanecerem fiéis aos suportes tradicionais sem abrir mão de suas experimentações formais. Ou que os artistas que possuíam uma forte interioridade como ponto de partida pouco se importavam com as "ondas" que nos fascinavam através das Bienais de São Paulo - também este foi o caso de um Evandro Carlos Jardim, por exemplo. Assim, os desenhos desta década refletem antes uma introversão violenta, remetendo-nos em particular ao imaginário de um Marcello Grassmann, ou ao talento de um Cuevas, focalizando a carga do homem, sua solidão e angústia, a linha fluindo de dentro para fora, antes submissa ela mesma à sua necessidade de expressão gráfica, como diz a artista com outras palavras em depoimento colocado à entrada da exposição.

Giselda LeirnerComo pode uma artista tão senhora de seu métier manter-se distante de uma auto-exposição por tanto tempo? É um dos mistérios com o qual nos interrogamos frente aos desenhos de Giselda. Daí concluímos ter sido essa uma opção de vida. Pois coragem, audácia diante do papel não lhe faltam nunca. Aborda as grandes superfícies com um domínio da organização do espaço, que povoa com um gestualidade invejável a partir de uma temática esotérica, poderíamos dizer. Nela está presente sem qualquer dúvida, talvez até de despeito de sua racionalidade, um compromisso tácito com o humanismo judaico, como um retorno à ancestralidade através das imagens hieráticas imponentes de formas enigmáticas que dominam grandes campos (mesmo que com isto mencione o impacto recebido em 1981 pela presença de Philip Guston na Bienal de São Paulo, quem, aliás, influenciaria também a jovem geração da época, em particular Paulo Monteiro, do grupo Casa 7).

Uma introversão mais acentuada em seu trabalho pode ser apreciada igualmente nas "paisagens" dos anos 70, pequenas composições freqüentemente centradas em grandes folhas, a colagem cuidadosamente incorporada ao desenho, a pintura a guache (?) sobre papel finalizando o trabalho, algo do clima de recolhimento, momentos quem sabe de contemplação da natureza, com certeza da fase de residência em Campos do Jordão. Nesse tempo igualmente surgiram estudos de formas de movimento concêntricos, emaranhados de linhas, como os trabalhos em crayon. Aliás, falar em técnica ou domínio da técnica parece quase extemporâneo nesta época em que as manifestações sensíveis substituem o objeto artístico. Daí porque a exposição da Giselda e também um mostruário de um tipo de obra a cada dia mais rara: a do autor que desenha manejando com destreza o lápis, a aguada, o nanquim, trabalhando em litografia, pastel crayon, acrílico sobre cartão. Todas as modalidades de matérias, enfim, igualmente abordados pela desenhista na realização de seus exercício.

Giselda LeirnerOs anos 80 assistem quem sabe à presença de maior dramaticidade, por volta de 1985, em suas imagens: ao caráter efêmero do ser humano se contrapõe a vigência eterna dos mitos, a hieraticidade já referida à monumentalidade dos grandes espaços urbanos. Há algo de terrificante nessas figuras enormes, nessas aparições fantasmáticas de deuses de sempre imagens cifradas a conturbar nossa tentativa de difícil decodificação. É o que pouco depois ela denominaria de série "Babel", na qual composições fluentes parecem focalizar o caos das grandes metrópoles, arquiteturas, iluminadas/imaginadas, visionárias, construídas com uma gestualidade fluente e de alta voltagem energética. A luz passa a ocupar, aqui nesta série de desenhos, um lugar peculiar como carga expressiva. Giselda Leirner - artista que sempre considerei como prejudicada por uma excessiva auto-crítica que também a impedia de expor - vem trazer-nos nesta oportunidade seu percurso, para uma apreciação de corpo inteiro por aqueles mais próximos de sua geração. Ou para sua descoberta pelo mais jovens, que certamente desconhecem sua contribuição. Mas esta retrospectiva é também uma necessidade para ela, tanto quanto a sua compulsiva expressão gráfica através dos anos. Pois assim como a arte não possui força para mudar uma realidade, ela mesma reconhece que "o artista não faz cultura, o artista faz aquilo que não pode deixar de fazer". Mas ela é exageradamente lúcida para dar-se conta igualmente de que expondo a intimidade de seu sonho ela se faz partícipe da "dialética viva, emocionada", frente ao outro, na verdade, a razão de ser desse desejo de comunicação implícito na criação artística.

 

Aracy Amaral. Critica e historiadora de arte. autora de inúmeros livros sobre arte brasileira, em particular sobre o modernismo no Brasil. Dirigiu a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte Contemporânea da USP. Prof. Titular de Historia da Arte (USP), aposentada. Membro da Comissão de arte do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Curadora independente de arte brasileira no Brasil e em outros países. Texto escrito por ocasião da exposição retrospectiva de Giselda Leirner na Pinacoteca do Estado de São Paulo (1994). Página ilustrada com obras de Giselda Leirner, gentilmente encaminhadas pela artista. Contato: Contato.


 

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